Monday, October 10, 2016

Hora Marcada


 (ilustração: Morning Sun, Edward Hopper, 1952)


            O homem falava havia quase meia-hora e Raquel não conseguia concentrar-se no que ele dizia. Permanecia à sua frente, atrás de sua escrivaninha, com um pequeno sorriso que desenvolvera para expressar simpatia e consideração pelo cliente, mas na verdade sua mente voava muito distante. Não podia dizer onde: ora seu pensamento fixava-se na gravata de tweed desgastada que pendia do colarinho do homem, ora vagava por mil regiões obscuras de sua mente e do tempo. Lembrava daquela vez em que tinha sido rude com a professora de inglês e só percebera o fato depois de semanas. Ela ainda acordava de noite envergonhada daquele episódio. E isso havia sido há mais de 30 anos. O tempo da entrevista terminou e ela não poderia dizer quais eram os problemas do homem, que se chamava João. Mesmo assim, combinaram 4 sessões semanais, após uma breve relutância do paciente. Raquel explicou que o método psicanalítico pressupunha um contato bastante frequente a fim de que se estabelecesse o que é conhecido como “transferência”. João então concordou em iniciarem na semana seguinte.

            Em sua sessão semanal com Rui, seu próprio psicanalista e supervisor, Raquel mencionou sua dispersão com o paciente.
-       Isso é material para a análise, Raquel. Tudo é material! Ele é muito deprimido? Às vezes as pessoas deprimidas estão sem energia suficiente para serem interessantes...
-       Rui, eu sei reconhecer a tristeza. Esse homem... parecia um gravador. Parecia que não estava ali.
            Rui pensou por alguns segundos.
-       E você estava ali? Pode haver algo dentro de você que a impede de relacionar-se com o que ele diz. Você tem certeza de que pode ajudar esse rapaz?
-       Não é um rapaz, é um homem. De uns 60 anos. Não sei...

            Mas as sessões continuaram, e Raquel olhava para a parede oposta do consultório enquanto seu paciente falava profusamente no divã, sem se dar conta que, apesar dos comentários ocasionais, a psicanalista não prestava a mínima atenção em seu monólogo. Ao invés disso, ela examinava detalhadamente as imitações de papiro com reproduções de hieróglifos. Escolhera cuidadosamente essas gravuras para seu consultório, pensando serem neutras o suficiente para não provocar juízos de valor na cabeça de seus pacientes. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua simpatia por Jung, uma sutil brincadeira interna com seus colegas de sociedade psicanalítica que ela jamais compartilharia com alguém.

            Raquel agora tentava alinhar, usando um só olho, a ponta do seu lápis com a ponta do cetro do Osíris na parede oposta. Foi quando ouviu pela primeira vez em muitas décadas a risada daquele homem. Ela nem sabia a causa do riso, mas o som era muito familiar. Era uma risada fina, penetrante, que discordava totalmente da estatura e corpulência do seu dono. A boca de Raquel encheu-se de uma salivação reflexa e uma náusea que vinha das pernas, da espinha, de todos os seus poros a fez correr para o banheiro no tempo justo para que um jato de vômito fortíssimo ­­­­

            Depois de alguns minutos, visivelmente transtornada, ela voltou à sala. Mentiu que estivesse bem, e ainda permaneceu os 20 minutos seguintes, controlando sua náusea, com seus olhos muito abertos e ouvidos bem atentos ao que dizia aquele homem que a havia estuprado há mais de 20 anos.

***

            Sua vida havia demorado a entrar nos eixos. Depois dos primeiros anos de depressão, Raquel finalmente criou coragem para terminar a faculdade. Primeiro, foi uma coisa de fora para dentro: obrigou-se. Disciplinou-se. Um dia, levantou da cama, vestiu-se e surpreendeu a família no café da manhã. Comeu as torradas fingindo ser uma pessoa normal que sentia uma fome normal. Ninguém ousou fazer qualquer comentário a respeito, como se a menor menção ao seu estado pudesse quebrar o encanto que proporcionava aquele momento trivial, o primeiro em quase dois anos. E tomaram seus cafés, comeram seus pães, leram seus jornais, falaram amenidades, como se a vida sempre tivesse transcorrido normalmente.
            Raquel saiu de casa e estranhou a cor azulada da luz da manhã, os cheiros atarefados de antes do almoço que a cidade possuía, as sombras das coisas ocorrendo do lado oposto ao esperado, depois de muito tempo dormindo até o meio da tarde. Ela inalou o ar da manhã... e não sentiu nada, nem mesmo pena de si.
            E assim continuou, vazia, anestesiada. Na terapia, ficava sessões inteiras sem dizer uma palavra. Os meses foram passando, até que conseguiu chorar. Pode ter sido um comercial de carro, ou um filme de sessão da tarde, que disparou o choro que durou algumas semanas, de maneira intermitente. Sua terapeuta limitava-se a passar-lhe os lenços de papel. Apesar de tudo, Raquel não sentia como se fosse ela quem chorava. Ao contrário: parecia olhar de fora, com um certo constrangimento, aquela menina que soluçava convulsa no divã. Ao final da sessão, ouvia que estava fazendo progresso.
            Transferiu de filosofia para psicologia, assegurada de que quem sente a dor também pode curá-la. Depois do terceiro ano, sentiu voltar dentro de si a vontade de viver. Ganhou peso e entusiasmou-se com os estudos.
            Mas seguiu desconfiando de si mesma, intimamente. De alguma maneira, ela sabia que ela não era aquela jovem que retomava sua vida. Sua verdadeira identidade era aquela que a via de fora, que assistia a vida da Raquel que se esforçava para ser uma pessoa normal, aquela que um dia iria enterrar-lhe um punhal nas costas, quando menos se esperasse. Esse pensamento não era muito claro; era só uma ideia vaga que passava pela sua cabeça, rápida e fugidia como um duende, naquele momento em que a mente da gente está entre o sono e a vigília e os pensamentos são parecidos com sonhos.

***

            A decoração da sala de espera de Rui exibia o desapego involuntário das pessoas que fazem da sua profissão um sacerdócio. A cortiça envelhecida que revestia as paredes era um tributo à sua absoluta falta de tempo, absorto na carreira acadêmica e no treinamento de novos psicanalistas, mas também por culpa de seu desprezo pelas aparências. Raquel folheava freneticamente a terceira revista, com as mãos trêmulas. Sua vontade era sair correndo por aquela porta, mas ela já não tinha mais como justificar-se. Havia faltado às últimas duas sessões, tentando recompor-se. Seu coração palpitava cada vez que pensava na possibilidade de Rui descobrir seu segredo. No início, tinha medo de ser um fato forte o suficiente para desclassifica-la como candidata a psicanalista. Agora, era o temor da reação que ele teria por ela ter escondido um assunto tão grave durante tanto tempo. Toda a sua relação com Rui havia sido construída sobre uma mentira, praticamente. Se ela revelasse agora seu segredo, certamente seria o fim de sua carreira. Perderia seu assento na Sociedade, perderia seus clientes, seus amigos... Esse era um pensamento circular que reverberava em sua mente há dias. Com o coração acelerado, levantou-se para ir embora dali no exato momento em que Rui abriu a porta de sua sala para recebe-la. Cumprimentou-a com um sorriso de saudade sincera, ao que ela respondeu com um balbucio incompreensível.
            Um rio de palavras aparentemente conexas saiam de sua boca. No seu íntimo,  esperava um suposto momento correto para contar a verdade medonha que tinha dentro de si, engasgada desde há muitos anos, mas não o encontrava. Depois de 50 minutos de torrente verbal, Rui avisou que seu tempo terminara. Raquel então sentou-se no divã, colocou sua bolsa no colo e um choro convulso a dominou. Contou tudo, como havia acontecido, como havia tentado esconder durante anos, como havia reconhecido a risada de seu algoz depois de 22 anos.
-       Mas você tem certeza de que é ele? Será que você não pode ter se enganado? É uma prova muito tênue, você reconhecer a voz...
-       O riso!
-       Ou o que seja. Será que sua mente não está lhe pregando uma peça? Afinal, você fugiu disso durante quantos anos? Um dia, a conta chega.
            Raquel teve um ataque de raiva, sentindo o questionamento de Rui como uma traição. Ele conseguiu acalma-la parcialmente, mas na verdade o paciente das 17h já havia tocado a campainha por duas vezes. Marcou com Raquel uma nova sessão para aquele mesmo dia, às 18h.  Raquel concordou, mas aquela seria a última vez em que conversariam.

***
            As semanas seguintes transcorreram numa atmosfera de sonho ruim. Raquel não teve coragem de retornar ao consultório de Rui, nem de atender a suas chamadas. A faxineira tinha dificuldade em arrastar a porta da área de serviço  por conta correspondência acumulada, junto com os jornais não lidos da semana.
            Em seu consultório, Raquel passou a fumar dentro da sala de atendimento, coisa que não fazia desde os anos 1980, quando ainda era socialmente aceitável. Vários pacientes estranharam e até mesmo reclamaram, mas ela não se incomodou com as reclamações. Na verdade, ela perdeu alguns pacientes por isso, mas o único que a importava também fumava.
            Quando a dúvida suscitada por Rui ainda estava presente em sua mente, ela tentou direcionar a conversa para que ele pudesse confessar a ela a atrocidade que os unia. Mas ficavam envoltos em sua névoa de nicotina, ele falando sobre sua vida enfadonha de funcionário público e ela tentando detectar algo que confirmasse aquilo que em seu coração tinha certeza. Tentava ser engraçada, na esperança de ouvir novamente aquela risada terrível que confirmaria definitivamente suas suspeitas, mas sem sucesso.
            Em pouco tempo, ele se tornou seu único cliente. Faziam sessões diárias, a preço especial que ele nunca chegou a pagar. Ainda naquele mês, a polícia arrombou a porta do consultório, após a família do paciente dar queixa de seu desaparecimento, e o sistema de segurança do edifício de Raquel confirmar que ele
entrara no consultório, mas não havia registro de sua saída.

            Os policiais ainda puderam perceber no ar o  cheiro amargo do cianeto. O corpo do funcionário público foi encontrado junto à porta reforçada, com escoriações nos dedos. Em sua cadeira de couro, à cabeceira do divã, o corpo de Raquel parecia repousar, e alguém sugeriu até mesmo perceber um sorriso em seus lábios. No cinzeiro, um cigarro com sua cinza inteira prestes a cair, como se tivesse queimado sem que alguém o tragasse.

Wednesday, April 13, 2016

Love Must Be Some Kind Of Psychosis

Here I am again
King of none
(not even myself)
The prune of a summer in vain.

Every cry of the day
Is a path to her.
I am deaf to all other roads
Blind in madness,
Dead.

For love ever is:
Clear to dark,
Wise to fool,
Life to death.

So here I am,
The dead Lord of Unreal.
 What is true?


When the rain
Wet the face of yet another summer
I will know.
And I’ll live once again.

(Illustration: The Robing of the Bride- Max Ernst)


Estou aqui novamente
Rei de nada
(Nem de mim mesmo)
O fruto seco de um verão vivido a esmo.

Todos os sons do dia
São um caminho até ela.
Sou surdo a todas as outras estradas,
Cego em loucura,
Morto.

Porque o amor sempre é:
Claro para escuro,
Sábio para tolo,
Vida para morte.

Então aqui estou.
O Senhor Morto do Irreal.
O que é verdadeiro?

...


Quando a chuva
Molhar o rosto de ainda um outro verão
Eu saberei.
E viverei mais uma vez.








Saturday, March 19, 2016

Experimento Drumondiano




 Tullio Crali Nose-Diving on the City, 1939










Ascensorista

A mulher sentada no banco
No elevador
Não responde ao bom dia da população.

Acham que é malcriada
Ou ranzinza
Ou leva algo grave na vida,
Uma filha perdida,
Um marido que bate...

Mas ninguém desafia.
Ao seu silêncio desdenhoso,
Baixam cabeças,
Seguem silentes para os seus andares
Fingem interesses nos celulares.
Sentem uma espécie de culpa, de fato:
Por irem e virem.
Enquanto a pobre, confinada na cabine,
Confinada na sua vida,
Sente na barriga a ilusão interminável de subir
Ou descer...
Seu desprezo silencioso é um preço barato
A se pagar por tudo o que devem a ela
As pessoas ricas,
polidas,
De sorrisos apertados
Que saem desesperadas,
Determinadas,
Mal a porta se abre.
...
Não sabem eles que na verdade ela é bastante surda.
...
Ela fica ali
No seu banquinho,
Jamais ressentida,
Olhando através dos seus óculos grossos
O infinito de cada dia,
Repetindo mentalmente os salmos do dia anterior,
Sem se deixar iludir pelo sobe e desce do elevador.

Sunday, June 23, 2013

Das Manifestações






Eu entendi assim: o movimento “passe-livre” é formado por estudantes de esquerda, principalmente ligados ao PSTU, PSOL e PCdoB. São revolucionários, e insistiram em manifestações já um tanto violentas, que a polícia estava acompanhando com certa amenidade, durante as duas primeiras semanas do movimento. Até que houve o caso do policial cercado e quase linchado, no centro, acho que na terça-feira, 11 de junho. A partir daí, tanto o comando – governo e secretaria de segurança - quanto a corporação da PM ficaram puctos. Na quinta-feira fatídica, dia 13 de junho, reagiram com violência desproporcional e feriram manifestantes, jornalistas e cidadãos que nada tinham a ver com a manifestação, perdendo toda a razão. A partir daí, a população geral aderiu, repudiando a violência policial, o que resultou na multiplicação dos atos e manifestantes. Mas isso gerou o que foi denominado “passeata dos coxinhas”: agora a maioria das pessoas nas ruas deram ao movimento uma tônica antipartidária, hostilizando quem se associasse a partidos políticos, antiviolência, tentando coibir o vandalismo e agressividade dos grupos originais do movimento, e antitudoqueestáaí. O vandalismo começou a ficar reservado para as altas horas da noite, quando os coxinhas viravam uma minoria. Mas a massa condenava a violência, e a mídia também evoluiu de uma falta de crítica total aos manifestantes à condenação dessas “minorias” violentas. Isso gerou um paradoxo: ao mesmo tempo em que o movimento ganhava apoio popular, as novas atitudes “burguesas” desagradaram os manifestantes iniciais, que adotaram posições confusas: na sexta-feira, 21 de junho, chegaram a anunciar que não convocariam mais manifestações mas, diante do fato delas acontecerem à sua revelia, retornaram às ruas, provavelmente com medo de perderem definitivamente alguma liderança que ainda restasse sobre o movimento.

Vamos analisar os atores dessa miscelânea: em primeiro lugar, o movimento passe livre. Seu protesto inicial era contra o aumento das passagens de ônibus e trens metropolitanos. Mesmo depois de revogados os aumentos, suas demandas tornaram-se mais radicais, como a manutenção do preço atual até 2015 ou mesmo o transporte público gratuito. Não me recordo de algum país que tenha tarifa zero para o transporte público, mas garanto que o dinheiro para tanto não sairia de outro lugar que não os cofres públicos que são, em última análise, o dinheiro da população. Os estudo econômico-financeiros desses modelos mostram-se inviáveis, mas o movimento passe-livre parece irredutível, como convém a qualquer revolucionário. Na verdade, o objetivo de revolucionários nessa fase de atuação é gerar conflito, tanto que não descansaram até que produzissem vítimas. Porque o que interessa, nessa fase de revolução, é gerar o embate entre as classes. Como está dito no manifesto do PSTU, um dos partidos que nutriam relações com os manifestantes originais do movimento:

“O PSTU é um partido formado por mulheres e homens comprometidos com a luta por um mundo mais justo e igualitário, um mundo socialista. Ao contrário dos demais partidos, o PSTU não prioriza as eleições, mas a ação direta como meio de transformar a realidade em que vivemos. É um partido composto por militantes que atuam no movimento sindical, estudantil e popular.(...) O centro do programa histórico do movimento trostquista prevê a ‘Ditadura do Proletariado’. Muitos detratores do marxismo utilizam isso para atacar os socialistas, afirmando que queremos uma ‘ditadura’, tal como havia nos países latino-americanos das décadas de 1960/1970 ou como existe hoje em Cuba ou na China. Porém, para os marxistas, ‘ditadura’ é a dominação de uma classe sobre a outra. Desta forma, vivemos hoje uma ditadura burguesa, em que uma ínfima minoria da população exerce seu controle político, econômico e militar sobre a maioria. A Ditadura do Proletariado é o predomínio da classe trabalhadora, a imensa maioria da população, sobre a burguesia. Ou seja, seria uma democracia infinitamente mais democrática que a atual falsa ‘democracia’.”

É claro que o objetivo parece justíssimo. O grande perigo desse posicionamento é quem tem levado a uma disposição a desobedecer à lei, como tem ocorrido nas manifestações pela “minoria vândala”. Esse tipo de autoritarismo é o que leva a ditaduras de fato. Foi assim na nossa funesta ditadura militar, quando um grupo de militares e políticos, com ajuda externa de países ocidentais, passaram por cima das instituições e instalaram um estado de exceção que nós conhecemos bem, e desejamos nunca mais ver acontecer. O grande perigo dos que se acham justos é quando eles começam a justificar atos ilegais por participarem de uma causa maior, que garante sua integridade ética e moral. Esse sofisma está na base de todo sistema autoritário, seja ele de direita ou de esquerda. Com Hitler foi assim, tanto quanto foi com Médici, com Lenin, com Fidel ou com Pinochet. Todos eles eram nacionalistas que acreditavam, em alguma medida, que estavam fazendo o melhor para seus países. Há uma imagem excelente sobre isso num livro de Marcelo Rubens Paiva, que li há muitos anos, acho que era o “Não És Tu, Brasil”: um revolucionário, clandestino há anos, mantém-se à custa de pequenos assaltos a supermercados. Sua célula revolucionária resume-se a ele mesmo e justifica os assaltos como sendo parte do projeto revolucionário. Fora isso, não tem outra atividade senão esconder-se num apartamento e ver TV. O próprio comportamento do PT no governo, quando decide adotar uma postura pragmática – troca de favores com PMDB, Waldomiro Dinis, escândalos da Casa Civil, Aloprados, Mensalão, tentativa de controle da imprensa, PEC 37, e muitas outras, revela essa autoindulgência de quem acha que é desculpável por ter subjacente uma causa maior. Eu quero acreditar.

A desobediência à lei - ou sua distorção - num estado democrático de direito deve ser coibida para que se garantam as instituições que sustentam esse estado. Montesquieu diz algo de que eu gosto muito, que a “Liberdade é o direito de fazer qualquer coisa que a Lei permita”. Neste sentido, a polícia tem a obrigação de garantir a preservação do patrimônio público e os direitos do restante da população. Isso não tem ocorrido. Ora leniente, ora violenta em demasia, a força policial principalmente em São Paulo tem metido os pés pelas mãos. Não que isso seja tarefa fácil e corriqueira: os acontecimentos recentes têm desnorteado a todos e confundido as autoridades. No início do embate, a polícia foi pouco atuante. Os manifestantes pichavam os ônibus, ameaçavam a burguesia presa nos congestionamentos. Quando do episódio do policial quase linchado, a polícia, governador e secretário de segurança adotaram uma postura temerária de exagero na repressão. O maior engano talvez tenha sido o de disparar balas de borracha contra multidões aparentemente pacificas, e de usar o “borrachão” indiscriminadamente e de maneira passional. Isso ocorreu principalmente na quinta-feira 13 de junho. A reação popular e da mídia foi de absoluta condenação. Foi essa ação desastrosa que catalisou a adesão em massa da população às manifestações que se seguiriam. O comparecimento de centenas de milhares de pessoas às ruas na segunda-feira dia 17 de junho, em todo o Brasil, deixou perplexos a todos. E a força policial recuou, deixando o país novamente entregue à ilegalidade: agressões sérias, depredação e incêndio criminoso de um automóvel na Assembleia Legislativa do Rio, invasão do Congresso Nacional em Brasília, queima de ônibus em Porto Alegre... quase todas ações que não encontraram resistência policial eficaz. Surpresa em São Paulo: nenhum incidente sério, a não ser a tentativa de invasão do palácio do Governo, que foi contornada sem violência excessiva.

É claro que a missão dos policiais não é fácil. São seres humanos, que recebem um salario insuficiente e têm sua vida ameaçada diariamente. Além de enfrentarem a violência habitual das cidades, recentemente ainda têm de enfrentar o extermínio sistemático da categoria, fenômeno absurdo que se iniciou no ano de 2012, mais ou menos como uma sistematização das ameaças ocorridas em 2006. Além de tudo, enfrentam a desconfiança da população, que reconhecem neles a corrupção e a violência de um sistema de segurança falido e ineficiente. Isso é um dos aspectos mais graves expostos por crises como estas: a polícia, que é o representante do Estado, não tem a mínima confiança da população. Isto é um dos problemas estruturais mais graves que temos que destrinchar para conseguirmos um pais mais justo, mais seguro e com mais cidadania. Mas não é desculpa: o comando falhou nas ordens – como a de não permitir que manifestantes chegassem à Paulista a qualquer custo – e também os policiais não mostraram preparo para uma situação destas. No momento seguinte, voltaram à leniência e prevaricação ao serem complacentes com atos de vandalismo. No momento atual, com a opinião pública sabendo discernir o que é vandalismo e provocação e o que é manifestação razoável, parece que a polícia também chega a um equilíbrio.

O interessante do abuso policial foi que ele mobilizou a população em torno das manifestações. Ou seja, não fossem os exageros dos manifestantes originais, não haveria o exagero policial e então não haveria a manifestação popular generalizada. A História acontecendo meio ao acaso. O movimento saindo do controle da liderança original. As demandas mudando de aspecto.

Quando os “coxinhas” (a denominação coxinha surgiu entre os ativistas mais “profissionais”) saíram à rua na segunda-feira 17, tudo era diferente. A bandeira do passe-livre já não era o centro das demandas: agora, tudo era motivo para protesto, ou seja, o estado da nação. Apesar da bagunça, é possível resumir tudo numa ideia principal: a população nas ruas não se sente representada pelo sistema político atual – dada a rejeição aos partidos políticos durante as manifestações – e discorda de quase tudo que o governo faz em vários níveis. O fisiologismo, o loteamento do poder pelo apoio político, a corrupção, a legislação em causa própria, o descaso com as demandas reais da população, a atuação política pelo motivo único de ganhar mais poder político, tudo isso parece ser a força motriz desse movimento mais geral. Essa população que compareceu em massa às ruas não está à esquerda do PT, como os manifestantes iniciais. São, sim, representantes da classe média e classe alta que vocalizam um descontentamento “burguês”, sem ideologia, pragmático, que exige que o governo faça o trabalho para o qual foi designado e use melhor o dinheiro recolhido com a maior carga tributária do mundo. É possível que nem representem a maioria do eleitorado, seduzido por novas esmolas do governo Dilma, como o programa “Minha Casa Melhor”, estrategicamente lançado nos comerciais da copa das confederações. Mas a burguesia mostra-se muito descontente, como atestam as vaias que Dilma recebeu na abertura daquela mesma copa.

O significado numérico e eleitoral disso é difícil de discernir-se. Mas foi suficiente para deixar atônita toda a classe política. De que pelo menos uma parcela significante e vocalizada da população perdeu a paciência. Quer ver mudança. Quer ver resultado administrativo. Como fazê-lo? Com uma mudança profunda no sistema político. Moldar um sistema que não garanta a impunidade da classe política. Que coíba a legislação em benefício próprio. Que instituía mecanismos de controle da corrupção, e não o contrário – vide a injustificável PEC 37. Que institua mecanismos de produtividade da classe política, obrigando-os a produzir soluções para as demandas da população.

Temos como realizar tamanha tarefa? É possível que não, infelizmente. Mantidas as exceções individuais que só atestam a regra, o que vemos é um executivo corrupto e entregue aos aliados escorpiônicos, um legislativo leniente, corrupto e fisiológico, um judiciário ora rígido (como nas condenações do mensalão), ora auto indulgente (aprovação dos novos TFRs) ou mesmo complacente (o prazo de análise dos recursos do próprio mensalão), a falta de vergonha nacional da classe política, que aderiu ao pragmatismo fisiológico sem maiores preocupações com a opinião pública, e transformou todo ano em ano eleitoral... É difícil imaginar que estes mesmos atores vão realizar cortes na própria carne, estoicamente, puramente para cumprirem os deveres que aviltam há décadas, de maneira progressivamente mais grave.

Por outro lado, a novidade é que parte da população parece ter realmente acordado para estas realidades, e mostram seu descontentamento e impaciência, mesmo que de forma aparentemente desorganizada. Vai ser interessante ver o que isso produz. Vou torcer para que produzam um processo de mudança no sentido de recuperarem-se as instituições republicanas, os partidos e os políticos. Isso depende basicamente de uma atitude destes mesmos políticos. E vou torcer contra a continuidade do processo de desmoralização do Estado. Porque este tipo de desmoralização, com a desconfiança da população em relação às instituições, abre muito espaço para o autoritarismo, coisa que o país não quer ver novamente.